Hoje, depois de muito relutar, comecei a leitura d'A paixão segundo G. H, da Clarice Lispector.
Eu sempre tive uma limitação relacionada à tudo o que esta mulher escreveu. Sempre que pegava um livro, não passava das primeiras páginas, guardava para "ler depois" e esse depois não chegava. Não sei explicar muito bem isso, a justificativa que consigo dar, hoje, é que ela pega numa ferida minha, fala sobre os meus dilemas pessoais, consegue entrar nessa minha mente confusa e maluca... Com algum cuidado, digo que a Lispector canta na mesma sintonia que eu, por isso a relutância em encará-la. Isso tudo também porque tenho uma dificuldade imensa em identificar e colocar os meus demônios para fora, admitir as minhas crises, a minha personalidade etc. Coisa de gente cabeça dura, eu sei.
E, mesmo que as 60 e poucas páginas que li já tenham mexido demais nessas feridas, me sinto mais leve, mais alegre, mais "de bem com o meu dia" - que piegas! - mas é.
Bom, o livro é fantástico, como eu já esperava, e forte... MUITO forte.
E como hoje estou generosa, alguns pingos dela à quem possa interessar (e eu espero que interesse à muita gente!):
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
[...]
O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade."
Putz, me dá vontade de ficar copiando e copiando, a tarde toda...
A terceira perna... eu criei uma. E essa perna significa, para mim, todo o comodismo que eu tenho com as coisas da vida, seja no trabalho, nos relacionamentos pessoais, etc. E é obvio que atrapalha, pois, como a Lispector diz, só é possível caminhar com as duas pernas. Uma terceira te impossibilita de dar qualquer passo, por menor que seja. Estou tentando amputá-la de mim neste exato momento - e me sinto feliz por isso (já é um passo!).
(estou tão auto-ajuda hoje... acho que vou fundar uma nova igreja rs)